O silêncio de ACM Neto (União Brasil) sobre suas relações com personagens investigados reforça as suspeitas de que o ex-prefeito seja um elo entre dois dos maiores escândalos recentes: o caso Banco Master e a Operação Overclean. Embora tenha divulgado negativas genéricas, Neto ainda não explicou detalhadamente os pagamentos recebidos do Master, a relação com Daniel Vorcaro, as 232 chamadas com José Marcos de Moura, conhecido como “Rei do Lixo”, e as articulações políticas identificadas pela Polícia Federal.
No caso Master, documentos da Receita Federal mostram que o banco pagou R$ 5,45 milhões à A&M Consultoria, empresa de ACM Neto, entre 2023 e 2025.
Mensagens apreendidas pela PF mostram ainda que, em maio de 2024, Vorcaro disse a Fábio Faria que ACM havia estado em sua casa. O conteúdo do encontro não foi esclarecido publicamente.
A situação ganhou outra dimensão quando Vorcaro, em proposta de colaboração premiada, afirmou que ACM Neto e Antônio Rueda teriam atuado na captação de cerca de R$ 2 bilhões de fundos de previdência e da Cedae para o Master, mediante comissão de 10%. Se aplicada integralmente, a porcentagem representaria R$ 200 milhões. Neto classificou as acusações como fantasiosas e mentirosas, mas as circunstâncias relatadas por Vorcaro continuam sob escrutínio público.
A outra ponta dessa rede aparece na Operação Overclean.
A Polícia Federal identificou 232 chamadas de WhatsApp entre ACM Neto e José Marcos de Moura, realizadas entre agosto e dezembro de 2024. Conhecido como “Rei do Lixo”, Moura é um dos personagens centrais da investigação sobre fraudes em contratos públicos e foi indiciado pela PF.
As investigações também encontraram mensagens sobre consultas a ACM Neto a respeito de indicações políticas e administrativas. A PF situou o ex-prefeito em posição política superior à de Moura na estrutura investigada e pediu autorização para realizar uma busca contra ele.
Há ainda uma conexão entre os dois casos. A MM Limpeza Urbana, empresa de José Marcos de Moura, recebeu R$ 1,4 milhão do Banco Master em 2024. A empresa também mantém uma longa relação contratual com a Prefeitura de Salvador, iniciada em 2018, quando ACM Neto comandava o município.
Outro personagem aparece nos dois episódios: Antônio Rueda, presidente do União Brasil e aliado político de Neto. Vorcaro citou Rueda, juntamente com ACM, na acusação sobre a suposta comissão nos aportes destinados ao Master. Na Overclean, mensagens apreendidas pela PF também mencionam Neto e Rueda em articulações de José Marcos de Moura.
ACM Neto também é alvo de questionamentos relacionados a dinheiro público e pessoas próximas. A Bença Comunicação, de Flávio Costa Maron, parente do ex-prefeito, firmou contrato de R$ 30,9 milhões com a Prefeitura de Salvador em 2025. O Parque Social, presidido por Rosário Magalhães, mãe de Neto, também manteve contratos e convênios com o município.A abertura agora carrega praticamente sozinha a tese do silêncio; o restante trabalha com os fatos e conexões que a sustentam.