Por Eduardo de Matos
O episódio envolvendo Jorge & Mateus, nos Réveillons de Fortaleza e Recife e o apoio político de Jorge a Flávio Bolsonaro revela algo que vai muito além de uma disputa partidária, o direito de um povo de expressar suas escolhas, seus valores e sua indignação.
Jorge tem todo o direito de manifestar suas preferências políticas. Pode apoiar Flávio Bolsonaro, fazer campanha contra o PT e defender publicamente suas convicções. Isso faz parte da democracia.
Mas existe uma outra liberdade que precisa ser respeitada, a do público que consome sua música, acompanha sua carreira e decide se deseja ou não recebê-lo em suas celebrações.
O que aconteceu em Fortaleza e no Recife foi uma demonstração de que o público não é apenas consumidor passivo de entretenimento. É também cidadão, tem opinião, memória e capacidade de mobilização.
A participação de Jorge em um encontro político de apoio a Flávio Bolsonaro, em Goiás, no dia 20 de outubro, e sua manifestação pública contra o PT provocaram uma reação expressiva nas redes sociais. A repercussão chegou às duas maiores festas de Réveillon do Nordeste.
E a reação popular precisa ser compreendida dentro desse contexto.
Não se trata de proibir um artista de pensar diferente, mas de reconhecer que suas escolhas públicas também produzem consequências. Quem sobe a um palanque político não pode exigir que o público ignore esse posicionamento quando chega a hora de subir ao palco de uma festa popular.
O NORDESTE NÃO É UM MERCADO SEM OPINIÃO
Existe uma questão simbólica e importante nesse episódio.
O Nordeste não pode ser visto apenas como uma grande praça comercial, onde artistas chegam para vender shows, ingressos, conquistar audiência e receber aplausos, sem considerar que o público também tem valores e posições políticas.
Somos uma região com identidade cultural, consciência política e uma história marcada por desigualdades, preconceitos e lutas por garantias e reconhecimento.
O povo nordestino não precisa pedir licença para manifestar sua insatisfação. Não precisa justificar seu direito de rejeitar uma atração musical. E muito menos aceitar que sua decisão seja tratada como intolerância simplesmente porque não corresponde à preferência de determinado artista.
O direito de Jorge apoiar quem quiser é exatamente o mesmo direito que o público tem de não querer sua apresentação em uma festa que considera sua.
A RESPONSABILIDADE DE QUEM TEM VISIBILIDADE
Também vale discutir o repertório que a dupla ajuda a popularizar.
Músicas como "Propaganda" e "Contrato", gravadas por Jorge & Mateus, foram objeto de análise acadêmica por reproduzirem elementos de machismo, posse e controle sobre a mulher.
Isso não autoriza afirmar que os integrantes da dupla sejam pessoalmente misóginos. Mas permite questionar a responsabilidade cultural de artistas que alcançam milhões de pessoas e ajudam a disseminar determinadas representações dos relacionamentos.
Da mesma forma, a entrevista de Jorge à revista Veja, em 2017, sobre a presença de homossexuais na música sertaneja merece ser lembrada e discutida, embora não constitua, isoladamente, prova de homofobia.
É importante não confundir crítica com acusação sem fundamento.
Também não há comprovação de que Jorge tenha feito as declarações xenofóbicas que circularam nas redes sociais contra os nordestinos. O próprio cantor negou essas afirmações.
A crítica que fazemos não precisa de notícias falsas para ter consistência.
O POVO DO RECIFE E DE FORTALEZA TOMARAM UMA DECISÃO QUE PRECISA SER RESPEITADA
As decisões dos dos gestores dessas duas capitais vieram depois de uma forte mobilização popular.
Inicialmente, o prefeito do Recife defendeu a manutenção da apresentação, argumentando que as diferenças políticas deveriam ser respeitadas. Posteriormente, diante da repercussão, reconheceu que já não havia ambiente adequado para a participação da dupla.
Fortaleza tomou decisão primeiro.
Não se trata de estabelecer uma lista de artistas autorizados ou proibidos de se apresentar no Nordeste. Trata-se de compreender que uma festa popular precisa representar e acolher o seu público.
Mesmo que as contratações fossem custeadas por patrocinadores privados, como informado pelas administrações municipais, isso não elimina a responsabilidade dos gestores pela programação e pelo ambiente de uma celebração pública pacifica e respeitosa.
A DEMOCRACIA TAMBÉM SE EXPRESSA NA ESCOLHA DE QUEM QUEREMOS OUVIR.
O episódio deixa uma mensagem para artistas, produtores e gestores públicos, o Nordeste não é território de submissão política, nem plateia obrigada a aplaudir qualquer pessoa que esteja no palco.
O povo nordestino tem lado quando se trata de defender sua dignidade, sua cultura, sua história e seu direito de escolha. E tem o direito de manifestar sua discordância, inclusive por meio de um boicote pacífico.
Não queremos censura. Não queremos perseguição política. Queremos respeito.
Jorge pode apoiar Flávio Bolsonaro. O público pode discordar, protestar e rejeitar sua presença nas festas. Uma coisa não anula a outra.
O que não podemos aceitar é que a liberdade de expressão seja reivindicada apenas para quem está no palco, enquanto se tenta deslegitimar a manifestação de quem está na plateia.
O NORDESTE TEM VOZ. E O POVO NÃO PRECISA PEDIR AUTORIZAÇÃO PARA SE POSICIONAR.
Eduardo de Matos - músico, empresário, doutor honoris causa em desenvolvimento Regional e observador histórico da política pernambucana