Para entender o que estava em jogo em Monteiro naquele 1952, é preciso olhar o Brasil de então. O país vivia a democracia reconquistada em 1945, com a Constituição de 1946 e um jogo político dominado por três partidos: o PSD, herdeiro da máquina getulista nos estados; a UDN, antigetulista e bandeira da oposição; e o PTB, ligado aos trabalhadores urbanos. Getúlio Vargas, que presidira o país até 1945, voltara ao Catete em janeiro de 1951, eleito pelo voto popular, e governava entre a pressão pelo desenvolvimento nacional e o custo de vida em alta. Nas próprias páginas de O Norte há anúncios de uma "ofensiva contra a carestia" ao lado de manchetes sobre a Guerra da Coreia, num mundo dividido pela Guerra Fria. Eram anos de rivalidades ásperas, em que PSD e UDN disputavam cada prefeitura, e em que as brigas de Brasília reverberavam, com sotaque próprio, até o interior da Paraíba.
Foi nesse cenário que a eleição de um prefeito do Cariri subiu ao Tribunal Superior Eleitoral, e eu só soube dos detalhes por causa de um presente de historiador. Francisco Adriano, de Sumé, pesquisador dedicado à memória e à documentação histórica da nossa região, de uma terra que fez parte de Monteiro ao longo da história, me enviou pelo WhatsApp páginas do jornal O Norte, de João Pessoa, em que o nome do meu avô, Inácio José Feitosa, aparecia marcado edição após edição. Li devagar, depois li de novo, e decidi pesquisar e contar essa história.
Já havia contado a trajetória dele em meu livro A Real Política: o representante dos automóveis Ford na década de 1920, o comerciante, o líder do PSD, o prefeito de Monteiro de 1951 a 1955, o presidente da Assembleia Legislativa da Paraíba em 1961 e 1962, o incorporador da Eletro-Cariri. Mas uma coisa é escrever sobre um avô, outra é vê-lo, no calor da hora, travando a batalha que quase lhe custou o mandato.
Em 1952, uma eleição suplementar no distrito de Prata foi anulada e o prefeito acabou afastado do cargo. Num país que ainda aprendia a ser democrático, isso poderia ter sido o fim. Não foi. O PSD recorreu, o Tribunal Regional mandou diplomá-lo e, em 28 de junho, a manchete de capa anunciava que o TSE dera provimento ao recurso de Monteiro. A decisão foi unânime e encerrou definitivamente o caso. Meu avô voltava à Prefeitura pela porta da frente, com o voto confirmado pela mais alta corte eleitoral do país.
O que mais me comoveu, porém, foram os telegramas. Nas edições seguintes, o jornal enfileira nomes de Monteiro, da Vila de Tigre, de João Pessoa e de toda a Paraíba, entre amigos, correligionários e moradores mandando abraços e parabéns. Alguns nomes o tempo apagou da página, mas o sentimento ficou: eram pessoas reconhecendo que o prefeito escolhido por elas tinha voltado. Isso é democracia local, um povo que se alegra quando o voto é respeitado.
Os jornais mostram ainda outras faces dele. Em maio, o texto "Uma explicação" defende as medidas de economia do prefeito e nega que fossem vingança política. Em julho, um anúncio da Casa Cruz, da firma Inácio Feitosa & Cia., trazia a loja de calçados e chapéus para João Pessoa. Meu livro conta que ele já tivera uma Casa Cruz em Campina Grande, em sociedade com Júlio Cruz: o prefeito nunca deixou de ser empreendedor. E o administrador austero de 1952 deixou obras que o livro registra, como o calçamento de ruas, a ampliação do campo de pouso e um motor novo e potente para a luz da cidade, tudo com poucos recursos.
Depois veio a trajetória estadual. Em 1954 candidatou-se a deputado, ficou na suplência e logo assumiu. Em 1958 elegeu-se titular e, em 1961 e 1962, presidiu a Assembleia Legislativa. O deputado Vital do Rego disse dele, em 1959, que "tem sido um verdadeiro sacerdote pelos interesses do Cariri". Sua grande meta como parlamentar foi levar energia à região, com a Eletro-Cariri, que depois virou SAELPA e hoje é Energisa. Não afirmo que 1952 tenha causado tudo isso, mas foi, sem dúvida, um passo importante: quem enfrentou e venceu aquela batalha ganhou autoridade para sonhar mais alto.
Escrevo estas linhas como advogado e educador, mas sobretudo como neto. Monteiro, no coração do Cariri paraibano, merece ser conhecida por quem vem de fora. Quem chega ao Cariri descobre que a história do Brasil também se escreve nos pequenos municípios, nas eleições disputadas voto a voto, e nos jornais amarelados que alguém guarda e, setenta e quatro anos depois, ainda emocionam. Essa memória só chega até nós porque há pesquisadores como Francisco Adriano, que a preservam.
Inácio Feitosa Neto
Advogado, mestre em Educação pela UFPE e escritor.