Por Inácio Feitosa
Talvez esta seja a pergunta mais indelicada que um prefeito precise responder antes de anunciar a “maior festa da história”: quando o último foguete estourar, a cidade continuará funcionando ou entrará na UTI?
O anúncio oficial é sempre um espetáculo à parte. Foca-se no brilho: o número de atrações com milhões de seguidores, a grandiosidade de um palco que humilha o tamanho da biblioteca municipal e a fotografia oficial que garante o engajamento do mês. Afinal, posto de saúde funcionando não gera check-in no Instagram, e saneamento básico — aquela obra que fica debaixo da terra — dificilmente rende uma selfie com filtro.
É preciso recordar uma premissa básica que a fumaça dos fogos costuma nublar: dinheiro público tem dono. Ele não pertence ao "prefeito ostentação" ou ao secretário entusiasta; pertence ao comerciante, ao trabalhador e ao cidadão comum que sustenta a máquina. Tratar esses recursos como algo sagrado não é avareza, é decência.
A palavra "prioridade" (do latim "prioritas", o que vem antes) sofreu uma mutação exótica no interior do Nordeste. Criamos a "prioridade coletiva": tudo é urgente. Mas a matemática, essa ciência teimosa que não aceita discurso político, avisa: quando se gasta um milhão de reais em um único cachê de noventa minutos, enquanto a cidade ostenta um "Decreto de Emergência" no Diário Oficial, a prioridade não é o povo. É o marketing.
Essa estratégia de "Pão e Circo" é milenar, mas hoje o circo é digital e custa muito mais caro que o trigo. É o triunfo da estética sobre a ética. É o brilho do painel de LED tentando ofuscar o buraco na rua, a falta de merenda na escola e a ausência de dipirona na farmácia básica.
Não se engane: este não é um texto contra o forró. Ser contra o São João no Nordeste seria uma estupidez sem tamanho. A festa é nossa alma, movimenta o comércio e gera alegria. Mas por que a prefeitura insiste em ser a única patrocinadora do luxo alheio?
Existem modelos inteligentes. Cidades que respeitam o contribuinte buscam parcerias privadas e patrocínios. Quem lucra alto com o evento pode, e deve, ajudar a pagar a banda. O papel do gestor é ser maestro da economia, não o "pagador universal" de cachês astronômicos com o dinheiro de quem não tem calçamento na porta de casa.
A sanfona deve, sim, tocar na praça. Mas o que beira o deboche é permitir que a conta continue tocando no bolso do cidadão muito tempo depois que a música acabar. A festa passa, a ressaca política fica, e o povo — aquele que aplaudiu o artista no palco — acorda no dia seguinte na mesma cidade de barro.
Inácio Feitosa
Advogado, escritor e professor universitário.