O Autor Fica com Zero e a Livraria com 60%?
Publicado em 06/06/2026 às 09:25


Existe algo curioso no mercado editorial brasileiro. O principal personagem de toda a cadeia produtiva do livro — o autor — muitas vezes é justamente quem menos recebe pela venda da obra.

Parece exagero? Nem sempre.

Imagine um livro vendido por R$ 60. Em muitas operações de consignação, a livraria fica com algo entre 50% e 60% do valor de capa. Sobram R$ 24 ou R$ 30 para todo o restante da cadeia. É desse valor que precisam sair os custos de revisão, preparação de texto, diagramação, projeto gráfico, capa, ISBN, impressão, logística, armazenamento, divulgação e, finalmente, a remuneração do autor.

Ao final da conta, não é raro que o escritor receba pouco ou praticamente nada.

O paradoxo é evidente. O livro existe porque alguém estudou, pesquisou, escreveu, revisou e dedicou meses ou anos de sua vida à produção intelectual. Sem autor não existe livro. Sem livro não existe editora. Sem editora não existe catálogo. Sem catálogo não existe livraria.

Ainda assim, em determinadas operações, o criador da obra termina ocupando o último lugar na fila da remuneração.

É claro que as livrarias possuem seus argumentos. Mantêm equipes, pagam aluguel, energia, tecnologia e convivem com um mercado cada vez mais difícil. Muitas enfrentam enormes desafios para sobreviver. Não ignoro essa realidade.

Mas isso não elimina uma pergunta legítima: o modelo atual distribui adequadamente os ganhos e os riscos?

Na maioria das vezes, o autor assume praticamente todos os riscos. Ele produz o conteúdo. A editora investe na preparação da obra. Os exemplares são impressos. O livro é entregue em consignação. Se vender, todos comemoram. Se não vender, normalmente o prejuízo retorna para quem produziu.

Há ainda uma segunda discussão, pouco abordada. A transparência.

Ao longo da minha trajetória como autor, já vivi situações em que livros deixados em consignação permaneceram meses sem prestação de contas clara sobre vendas, estoque ou devoluções. Não se trata de um caso isolado ou de uma crítica dirigida a esta ou aquela empresa. Trata-se de uma fragilidade do modelo que merece reflexão.

Quem escreve deveria saber quantos exemplares vendeu. Quem entrega livros em consignação deveria receber relatórios periódicos. Quem produz conhecimento deveria ter acesso transparente às informações sobre sua própria obra.

No meu caso, a experiência me levou a uma decisão ainda mais radical.

Decidi não ser apenas autor.

Decidi criar minha própria editora.

Passei a assumir os custos de publicação, revisão, diagramação, impressão, lançamento e divulgação. Passei a vender diretamente em eventos, palestras e plataformas digitais. Em outras palavras, além de escrever, passei a exercer praticamente todas as funções da cadeia editorial.

Alguns dirão que isso representa mais trabalho. E representa mesmo.

Mas pelo menos sei quantos livros foram vendidos, quem são meus leitores e para onde foi cada exemplar.

Não pretendo abandonar as livrarias. Elas continuam importantes para a cultura, para a formação de leitores e para a democratização do acesso ao conhecimento. Contudo, confesso que tenho encontrado mais transparência e previsibilidade nos canais digitais do que em parte do sistema tradicional de consignação.

A revolução digital começou a questionar essa lógica. Cada vez mais autores realizam lançamentos próprios, vendem em eventos, utilizam redes sociais, promovem palestras, participam de feiras literárias e comercializam diretamente para seus leitores.

O objetivo não é eliminar as livrarias. Elas continuam exercendo papel fundamental na formação de leitores e na circulação da cultura.

O que se discute é o equilíbrio.

Talvez tenha chegado o momento de o mercado editorial refletir sobre modelos mais justos, mais transparentes e mais sustentáveis para todos os envolvidos. Afinal, uma cadeia produtiva saudável depende de editoras fortes, livrarias fortes e leitores satisfeitos. Mas depende, sobretudo, de autores motivados a continuar escrevendo.

Porque quando o autor fica com quase nada, o risco não é apenas econômico.

O risco é cultural.

E uma sociedade que desvaloriza quem produz conhecimento acaba pagando uma conta muito maior do que qualquer percentual de comissão.

Quando o autor escreve, investe, publica, divulga e ainda precisa lutar para descobrir quantos livros vendeu, algo não está funcionando como deveria.

E quando cada vez mais autores decidem fazer tudo sozinhos, talvez o problema não esteja nos autores.

Talvez esteja no modelo.

Inácio Feitosa
Advogado, escritor, professor universitário e fundador do Instituto IGEDUC.

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