A Polícia Federal desferiu um golpe sem precedentes nas finanças do crime organizado ao deflagrar a Operação Exchange, que resultou no sequestro recorde de R$ 10,4 bilhões em bens, valores e criptoativos de uma rede acusada de lavar dinheiro para o Primeiro Comando da Capital (PCC). A ação mobilizou mais de 50 agentes em São Paulo, Santos e Santana de Parnaíba, culminando na prisão de Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira, a "Lara Croft". O principal alvo, o empresário Victor Henrique de Oliveira Shimada, o "Japa", conseguiu escapar e é considerado foragido.
O diretor da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, creditou a fuga de Shimada às sanções impostas pelos Estados Unidos ao casal, que serviram de alerta e permitiram que o empresário tivesse tempo de escapar. Na quarta-feira, o Departamento do Tesouro dos EUA impôs sanções a Shimada, acusando-o de participação em um esquema de lavagem de dinheiro ligado ao PCC. A decisão norte-americana forçou a antecipação da operação da PF.
"A classificação alterou nossa ação. Não posso entrar em detalhes operacionais, por conta do sigilo da investigação. Mas, de fato, se não houvesse essa classificação (dos EUA), acredito que o desfecho teria sido outro, e nós o teríamos localizado. Houve prejuízo à investigação", enfatizou Rodrigues.
A tensão ocorre porque o governo dos EUA agiu de forma unilateral, sem comunicar previamente às autoridades brasileiras, com as quais cooperava desde 2024, via Departamento de Segurança Interna. Documentos do Tesouro americano justificam a urgência classificando o PCC como a "maior organização criminosa transnacional do Hemisfério Ocidental".
Estima-se que a rede de Shimada tenha lavado mais de US$ 30 milhões (R$ 156 milhões) em solo norte-americano, operando em cidades como Miami e Los Angeles, além de ramificações na Europa e na Ásia, usando criptomoedas.
No mês passado, os EUA designaram o PCC e o Comando Vermelho como Organizações Terroristas Estrangeiras, no que Rodrigues considerou um "erro grosseiro" e que atrapalha o enfrentamento das facções. Ele criticou a glamourização que infla a presença de grupos brasileiros pelo mundo.
"São objetivos diferentes, classificações diferentes e com enfrentamento diferente. Essa glamourização ou supervalorização de um grupo que, muitas vezes, nem tem relação com a facção não ajuda. Chega ao ponto de um preso nos EUA se autoatribuir líder de duas facções distintas; é um negócio sem sentido", criticou o diretor da PF.
A investigação aponta que Shimada e seus comparsas atuavam como "doleiros modernos", operando desde contrabando de alimentos da Argentina até lavagem de US$ 190 milhões em sete meses por meio de e-commerce e redes chinesas. A menção a rotas asiáticas levanta suspeitas sobre o uso do combate ao narcotráfico como cortina de fumaça para embates econômicos de Washington.
No front interno, o promotor Lincoln Gakiya, referência no combate ao PCC, afirmou desconhecer qualquer elo formal de Shimada ou Stella com a cúpula da facção nos inquéritos nacionais, ressaltando que o foco da dupla eram fraudes financeiras.
Corinthians
No Brasil, o empresário é réu no caso envolvendo o patrocínio da VaideBet no time Corinthians, em que sua empresa, a Victory Trading, ocultaria recursos desviados, além de já ter sido condenado por desviar R$ 35 milhões do banco BV via Pix. Os alvos da operação também esbarram no entorno de Vinícius Gritzbach, delator do PCC, executado em Guarulhos (SP) no fim de 2024.
O sucesso financeiro do esquema é ilustrado pela rápida ascensão social de Shimada, que, em 2017, possuía apenas um Fiat Palio e um Ford Del Rey e passou a ostentar um Audi Q8 e um Porsche Taycan, veículos que agora se tornaram o epicentro de um embate entre Brasília e Washington.
Na análise do especialista em segurança pública Diego Rodrigo Serafim, "para o Estado brasileiro, demonstrar capacidade de investigar e responsabilizar essas organizações reafirma sua soberania institucional, evidenciando que possui mecanismos próprios de enfrentamento".
Sobre o impacto prático do confisco de R$ 10,4 bilhões, Diego Rodrigo argumentou que a barreira financeira precisa estar atrelada a uma vigilância permanente. "O bloqueio patrimonial é uma das ferramentas mais eficazes, porque atinge o principal objetivo dessas organizações: o lucro. A retirada de recursos reduz a capacidade de investimento, logística e corrupção."
Ele pondera, no entanto, que os grupos criminosos têm alta capacidade de adaptação, e a asfixia financeira precisa vir acompanhada de cooperação internacional e repressão permanente às estruturas logísticas.
Flávio alfineta
O pré-candidato à Presidência pelo PL, Flávio Bolsonaro (PL), comentou a operação e aproveitou para criticar a gestão Luiz Inácio Lula da Silva. "R$ 10 bilhões do tráfico lavados debaixo do nariz de um governo que chamou o combate ao PCC de 'ingerência americana'", escreveu.
E acrescentou: "Enquanto os EUA sancionam suspeitos de ligação com a facção, aqui ainda tem gente relativizando o crime organizado em nome de uma falsa soberania. O Brasil precisa de quem enfrenta as facções, não de quem arruma desculpas para elas". Com informações do Correio Braziliense.