Mesmo sob influência de La Niña — fenômeno que normalmente resfria as águas superficiais do Pacífico —. o oceano acumulou calor em ritmo recorde no sudeste asiático em 2025. O resultado foi um ano marcado por ondas de calor marinhas sem precedentes, acidificação das águas, elevação do nível do mar, branqueamento de corais, derretimento acelerado da última geleira tropical da Indonésia e um ciclone histórico que matou mais de 1,2 mil pessoas na região.
O cenário foi descrito no relatório Estado do Clima no Sudoeste do Pacífico, divulgado ontem ela Organização Meteorológica Mundial (OMM), organismo das Nações Unidas. O documento mostra que 2025 foi o segundo ano mais quente já registrado na região — atrás apenas de 2024 — e traz um alerta adicional: há sinais do desenvolvimento de um episódio potencialmente forte de El Niño ao longo de 2026, capaz de intensificar ainda mais os impactos climáticos em todo o mundo.
"O oceano é central para os meios de subsistência, às economias e à resiliência de muitos países da região", afirmou a secretária-geral da WMO, Celeste Saulo, na apresentação do relatório. Segundo ela, o aquecimento das águas, a elevação do nível do mar, a acidificação dos oceanos e os eventos extremos impõem desafios crescentes às populações costeiras e insulares em todas as regiões do planeta.Brasil
As perturbações climáticas registradas no Sudoeste do Pacífico podem impactar o Brasil, caso o aquecimento evolua para um episódio de El Niño, com risco de enchentes no Sul do país, calor e seca no norte, em parte do nordeste e no centro-oeste, e mudanças de distribuição de chuvas no Sudeste. Os cientistas ressaltam, porém, que ainda é cedo para definir a intensidade desses efeitos em 2026. O comportamento do Atlântico tropical e de outros sistemas oceânicos também influencia o clima da América do Sul e pode reforçar ou amenizar os impactos do fenômeno.
O aspecto que mais preocupa os pesquisadores é que esses recordes terem ocorrido durante um ano de La Niña. Em condições normais, o fenômeno favorece o resfriamento das águas do Pacífico Equatorial e reduz temporariamente a temperatura média global. Dessa vez, porém, o efeito foi insuficiente para conter o aquecimento provocado pelo acúmulo de gases de efeito estufa na atmosfera.
A temperatura média da superfície na região ficou 0,37°C acima da média registrada entre 1991 e 2020. O calor armazenado no oceano também atingiu níveis recordes em diferentes áreas, especialmente ao sul da Austrália, no Mar da Tasmânia e em partes do Pacífico tropical. Uma das consequências foi a expansão das ondas de calor marinhas, com períodos prolongados de temperaturas excepcionalmente elevadas na superfície do mar. Embora menos intensas do que em 2024, elas atingiram praticamente toda a região e foram as mais extensas já observadas em um ano sem El Niño.
Corais
Os impactos são profundos, destacou a OMM. O excesso de calor provoca branqueamento de corais, mortalidade de peixes, proliferação de algas nocivas, perda de florestas de kelp (um tipo de alga) e alterações na distribuição de espécies marinhas, comprometendo atividades econômicas como pesca, turismo e aquicultura. Na Austrália, o relatório registra um episódio considerado histórico: pela primeira vez, houve perda de coloração simultânea dos recifes das costas leste e oeste durante a mesma temporada, evidenciando que o risco climático deixou de ser localizado para atingir grandes extensões do litoral.
Outro indicador preocupante é a acidificação dos oceanos. À medida que absorvem parte do dióxido de carbono emitido pelas atividades humanas, as águas tornam-se mais ácidas, dificultando a formação de conchas e esqueletos de organismos como corais e moluscos. Em 2025, praticamente todo o sudoeste do Pacífico apresentou os menores valores de pH já registrados. O relatório também destaca o avanço da elevação do nível do mar. Desde 1999, o aumento médio foi de 3,7mm por ano, ameaçando comunidades costeiras e pequenas ilhas, que enfrentam maior risco de erosão, inundações e salinização de aquíferos.
Entre os eventos extremos registrados no ano, o mais devastador foi o Senyar. O sistema tornou-se o primeiro ciclone tropical documentado no Estreito de Malaca desde o início dos registros históricos. A tempestade atingiu Sumatra, retornou ao mar e voltou a tocar o continente na Malásia, afetando mais de 10 milhões de pessoas. Em algumas localidades do norte de Sumatra, foram registrados mais de 400 milímetros de chuva em apenas 24 horas.
Estatísticas alarmantes
A retrospectiva da Organização Meteorológica Mundial (OMM) sobre o clima na região do Sudoeste do Pacífico para 2025 segue linhas semelhantes às de relatórios anteriores, embora também contenha algumas estatísticas interessantes — e alarmantes. Em relação ao mundo em geral, permanece a oscilação em torno do limite de aquecimento de 1,5 °C, que tem sido associada a impactos perigosos das mudanças climáticas. O que é notável agora é que esse aquecimento ocorreu apesar da presença de um evento La Niña — que geralmente atua para reduzir as temperaturas gerais no sudoeste do Pacífico. Dois mil e vinte e cinco foi, na verdade, o ano mais quente já registrado nessa região sem a presença de condições de El Niño — algo surpreendente, considerando que o evento El Niño está apenas começando a se manifestar agora.
Daniel Kingston, professor de Geografia da Universidade de Otago, na Nova Zelândia
Com informações do Correio Braziliense.