Apesar de queda, país registra média de 4 feminicídios por dia no 1º semestre
Publicado em 23/07/2026 às 08:00


O Brasil registrou 741 vítimas de feminicídio entre janeiro e junho de 2026, uma queda de 2,5% em relação ao mesmo período do ano passado, quando foram contabilizados 760 casos. Os dados foram divulgados ontem pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), e fazem parte do Monitoramento Nacional da Violência contra a Mulher, produzido em parceria com o Ministério das Mulheres.

Apesar da redução nacional, nove estados apresentaram aumento no número de casos na primeira metade do ano. A divulgação ocorre em uma semana marcada por mortes de mulheres por seus companheiros ou por seus ex-companheiros.

Ao todo, foram 19 feminicídios a menos no primeiro semestre em relação a 2025. Junho concentrou 108 registros, o menor número mensal de 2026 até agora. Os dados também mostram desaceleração ao longo do ano: enquanto o primeiro trimestre somou 400 casos, entre abril e junho foram 341 feminicídios, 59 ocorrências (14,75%) a menos.

Segundo levantamento da pasta, o recorte regional revela um cenário desigual no país. As maiores reduções ocorreram nas regiões Norte (-20%) e Nordeste (-19,9%), responsáveis por impulsionar o resultado nacional. Em contrapartida, as demais regiões apresentaram crescimento nos registros. O Centro-Oeste teve a maior alta proporcional (19%), seguido pelo Sul (19,2%) e pelo Sudeste (2,6%).

Entre os estados, Goiás liderou com larga margem o aumento nos feminicídios, com 113,6%. Em seguida, vêm: Sergipe (71,4%); Amazonas (66,7%); Santa Catarina (33,3%); Paraná (17%); Amapá (16,7%); Rio Grande do Sul (13,9%); São Paulo (10,1%); e Rio Grande do Norte (10%). Os demais estados apresentaram redução.

O ministério divulgou, ainda, os resultados das duas etapas da Operação Integrada Mulher Segura, realizada em 2026 para reforçar o enfrentamento à violência de gênero. Na primeira fase, entre 19 de fevereiro e 5 de março, foram registradas 6.328 prisões, atendimento a 38.801 vítimas, acompanhamento de 30.388 medidas protetivas e atuação de 40.097 policiais em 2.615 municípios.

Já a segunda fase, realizada entre 1º de junho e 21 de julho, contabilizou 14.113 prisões, atendimento a 53.343 vítimas, monitoramento de 25.420 medidas protetivas e mobilização de 58.833 agentes de segurança em 1.384 municípios. Somadas, as duas etapas resultaram em 20.441 prisões, das quais 16.131 ocorreram em flagrante e 4.310 por cumprimento de mandados de prisão.

Mortes recentes
Apesar da redução, casos recentes mostram que a violência contra a mulher, especialmente o feminicídio, marca o dia a dia das brasileiras. Na terça-feira, a advogada Bárbara Damião Costa, de 41 anos, foi morta a tiros em seu carro ao dirigir, em Campo dos Goytacazes, Rio de Janeiro, por um motociclista. A polícia aponta o ex-companheiro da vítima Rogério Conceição da Costa, de 44 anos, como o principal suspeito. Ele foi encontrado morto horas depois, em um apartamento, por suicídio, segundo a apuração preliminar.

Em Belo Horizonte, Minas Gerais, o sargento Eduardo Abner Pereira de Oliveira, de 37, é suspeito de ter matado sua companheira, a capitã da Polícia Militar Michele Leão Azevedo, de 41 anos, na segunda-feira. O suspeito levou a vítima até o Hospital Odilon Behrens, alegando que ela havia sofrido uma queda da escada. No entanto, a extensão e a gravidade dos ferimentos no corpo de Michele, especialmente no rosto, levantaram suspeitas imediatas da equipe médica e dos policiais. Segundo o delegado Saulo Castro, o grau das lesões aponta para a intenção deliberada de agressão e de feminicídio. "Isso demonstra o dolo na intenção de cometer o crime", explicou.

O militar possui um histórico de agressões e crimes, e foi expulso da PMMG em 2009, mas reintegrado depois. No formulário do concurso para a corporação, ele omitiu que respondeu por ato análogo ao porte ilegal de armas quando era menor de idade. Eduardo também já havia sido preso em 2023 por embriaguez ao volante e, em 2016, foi acusado de agredir uma ex-companheira e de descumprir medida protetiva contra ela.

O corpo de Michele foi velado na tarde de ontem. No local, à imprensa, a personal trainer e vizinha do casal Daniela Soares da Silva disse que o casal brigava frequentemente. "Muitos xingamentos, era constante. Na semana da Copa, no dia 13, teve uma briga muito feia. Eu pensei que ia sair tiro", relatou.

Emboscada
Em Goiás, onde os casos de feminicídio mais do que dobraram no primeiro semestre, a professora Valdirene Vaz Clemente, de 41 anos, foi morta a tiros pelo seu ex-marido, Wanderlei Joaquim de Souza, de 36 anos, também na segunda-feira.

A professora voltava de uma igreja em Bom Jesus de Goiás quando Wanderlei, que estava escondido no caminho, atirou contra as costas e a nuca de Valdirene.

Ela havia denunciado o homem um mês antes por ameaças e lesão corporal, e também solicitou uma medida protetiva. Após o crime, ao ser confrontado por moradores, Wanderlei atirou contra a própria cabeça, e morreu. Com informações do Correio Braziliense.

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