As eleições de 2026 não devem alterar a fotografia do atual Congresso, segundo dados do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap). A tendência é de que a renovação da Câmara dos Deputados seja baixa, com 87,91% dos deputados querendo se reeleger. No caso do Senado, 62,96% dos parlamentares também indicaram que vão disputar mais um mandato.
Os números são recordes na história do parlamento brasileiro. Com esse cenário, a avaliação do Departamento é de que a renovação da Câmara seja inferior à média de 49% observada nas eleições realizadas a partir de 1990. Desde então, a troca de cadeiras superou este patamar somente em 1994 e 1990, quando alcançou mais de 50% e 60% respectivamente. No Senado, por outro lado, deve se manter um alto índice de renovação, como observado nas últimas eleições.
O aumento histórico de deputados dispostos a se reeleger não é o único fator que explica a baixa renovação na Câmara. Na avaliação de Gustavo Ribeiro, mestre em ciência política pela Sorbonne, o aumento do controle do orçamento público pelo Congresso é um dos fatores que influencia os partidos a manterem os deputados na Casa.Em meio a um enfraquecimento da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), em 2015, parlamentares começaram a articular formas de aumentar não só o montante de emendas parlamentares, mas o orçamento impositivo, aquele que o governo é obrigado a pagar.
Desde então, o valor empenhado de emendas impositivas disparou de cerca de R$ 3,38 bilhões em 2015 para R$ 37,54 bilhões em 2020, durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, chegando a R$ 47,07 bilhões em 2025. Neste ano, a Lei Orçamentária (LOA) de 2026 prevê aproximadamente R$ 61 bilhões em emendas parlamentares, sendo R$ 37,8 bilhões nas impositivas.
"O Congresso hoje controla parte relevante do orçamento, indica cargos e dita o ritmo do governo. Uma cadeira na Câmara vale mais do que valia 10 anos atrás", explica Ribeiro. Para ele, o cenário permite que o deputado deixe de depender do Executivo para entregar recursos na base eleitoral. Uma analogia seria que o parlamentar se tornou uma espécie de "prefeito com mandato federal, com caixa e carimbo".
O analista político da Arko Advice, Caio André Alencastro, concorda que o aumento da parcela do orçamento destinado a emendas parlamentares tem tornado mais atrativo o cenário de reeleição. "Os índices de reeleição sempre foram relativamente altos no Brasil, mas o orçamento tem intensificado isso, deixando mais atrativo para os deputados e senadores se reelegerem", conta.
O alto índice de tentativa de reeleição também reflete o foco de grandes partidos em manter representantes no Congresso. Nestas eleições, o Centrão optou por não apostar em candidatos à Presidência e priorizou emplacar deputados federais e senadores. Por isso, anunciou neutralidade e liberou os diretórios estaduais para apoiarem aqueles que proporcionem espaço no Legislativo.
Ao ter maioria no Congresso, os partidos podem interferir nos planos de governo do presidente da República. Um dos exemplos mais emblemáticos do terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi a rejeição pelo Senado da indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, ao Supremo Tribunal Federal (STF).
Com isso, o Diap aponta para uma tendência de manutenção da força da centro-direita e do Centrão no Congresso, com a permanência de um perfil econômico liberal, mas conservador para temas sociais e de costumes. A federação União Progressistas (União-PP), o PT e o PL despontam como os principais candidatos a formar as maiores bancadas da Câmara dos Deputados.
Republicanos e PSD completam o grupo dos partidos com maior potencial de crescimento. Entre as legendas do campo da esquerda e da centro-esquerda, a análise do departamento é de que o campo político deverá registrar crescimento moderado da bancada, sendo que o PSB tende a apresentar a maior expansão parlamentar.
Reeleição nos estados
Em estados como Bahia, Rio Grande do Norte e Paraíba todos os 59 deputados tentarão a reeleição. Em outros, como em Tocantins, 62% dos seus deputados não querem tentar um novo mandato. Nesse sentido, também destaca-se o Espírito Santo com 30%, além do Distrito Federal e Rondônia com 25%.
Aqueles que não pretendem se reeleger no parlamento, buscam outros cargos como governo e assembleia estadual ou Presidência da República. Há, ainda, aqueles que pretendem deixar a política. É o caso, por exemplo, do ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco (PSB), que optou por encerrar a carreira política. Outros senadores que seguirão este caminho são Luis Carlos Heinze (PP-RS) e Paulo Paim (PT-RS).
A reeleição parlamentar tende a ser mais atrativa para os partidos do que lançar um candidato novo. Em primeiro lugar porque com mandatos consecutivos o parlamentar pode construir e expandir sua esfera de poder no Congresso. "A cada ano eles conseguem uma parte maior do orçamento e, conforme têm mais tempo de casa, têm mais cargos e domínio sobre a destinação do orçamento", explica Alencastro.
Além disso, com as mudanças nas regras eleitorais que deixaram a cláusula de barreira mais rígida, cada vaga nas chapas virou um ativo "escasso" nas palavras de Ribeiro. "Apostar em quem já provou ter votos é menos arriscado do que testar nomes novos. É sobrevivência partidária antes de renovação", explica.
O Diap aponta para as "vantagens comparativas" entre os parlamentares em exercício e os políticos sem mandato: o montante de dinheiro público na mão de deputados. Atualmente, as emendas parlamentares individuais anuais superam R$ 26,6 bilhões. São somadas a elas verbas de gabinete — destinadas a custear despesas do mandato, como passagens aéreas — que variam entre R$ 30 mil e R$ 44,3 mil mensais.
O parlamentar conta com prioridades na distribuição de recursos do Fundo Eleitoral e com uma verba mensal de R$ 111,6 mil destinada à contratação de secretários. O Diap também cita o prestígio institucional e maior acesso a veículos de comunicação que facilitam o processo de reeleição. "Isso cria uma assimetria brutal em relação ao novato, que disputa sem máquina, sem verba e sem obra para inaugurar", avalia Ribeiro. Com informações do Correio Braziliense.