Parceria com a Fundação Ellen MacArthur prevê investimento de até R$ 300 milhões para fortalecer a reciclagem, as cooperativas de catadores e a despoluição dos rios da cidade
A cidade do Recife foi selecionada como pioneira de um projeto internacional de economia circular desenvolvido pela Fundação Ellen MacArthur, organização britânica reconhecida por suas iniciativas na área. A parceria, firmada nesta quarta-feira (1º) com a presença do prefeito Victor Marques e demais autoridades, deve mobilizar mais de US$ 50 milhões (cerca de R$ 300 milhões) ao longo dos próximos cinco a sete anos, na primeira etapa de uma iniciativa global que vai reunir poder público, empresas, cooperativas de catadores e sociedade civil.
Para o prefeito, o acordo representa um reforço à trajetória que a cidade já vinha construindo na área ambiental. “Nossa cidade conta com diversas iniciativas para proporcionar ainda mais sustentabilidade e agora vamos contar com esse reforço, transformando ainda mais o Recife em referência mundial. A trajetória para uma cidade mais ecológica não é simples, mas nós temos um compromisso e não teremos receio de cumprir cada etapa para trazer mais dignidade ao recifense”, contou o prefeito Victor Marques.
A parceria com Recife é a segunda etapa de um trabalho que começou com a elaboração do relatório Fechando o Ciclo: Transformando os Sistemas de Resíduos Urbanos e Protegendo os Rios do Brasil, publicado hoje pela Fundação Ellen MacArthur e pela Clean Rivers, que aponta uma visão para enfrentar a poluição por plásticos, especialmente em rios e mares. Recife foi escolhida para demonstrar essa visão na prática.
O secretário de Meio Ambiente Urbano do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Adalberto Maluf, destacou que é fundamental a união entre instituições para promover mais sustentabilidade para a população. “A gente precisava de um lugar, de uma cidade que tivesse fazendo a sua lição de casa, que fosse referência para mostrar que é possível expandir. A melhora da política pública só consegue sair do papel e ser efetiva quando todos estão juntos”, finalizou.
Recife se destacou como cidade ideal para ser pioneira desse projeto pelas ações desenvolvidas ao longo dos últimos anos nas áreas de reciclagem, coleta seletiva e economia circular, além da capacidade de articulação e entrega dos resultados esperados pela Fundação Ellen MacArthur e seus parceiros. A cidade também foi selecionada por reunir características semelhantes às de diversos centros urbanos brasileiros e do Sul Global, permitindo que as soluções desenvolvidas durante o projeto possam servir de referência para outras localidades.
Daniel Saboya, presidente da Emlurb, destaca a importância de uma economia circular que enxerga o catador como centro. “Hoje é, sem dúvidas, um marco para nossa cidade, garantindo que a prefeitura do Recife reforce a sua prioridade na economia circular e na coleta seletiva. Nos próximos seis anos podem contar conosco, com nossos esforços, para avançar o máximo da pauta dos catadores, que são uma das prioridades da prefeitura”, contou.
A próxima etapa do projeto começa quando representantes da Prefeitura do Recife, empresas parceiras, cooperativas e demais instituições envolvidas iniciarem a construção do plano de trabalho que vai orientar as ações a serem executadas. A partir desse processo serão definidas diretrizes, metas, cronogramas, responsabilidades e estratégias para a implementação das ações ao longo dos próximos seis meses.
“O Brasil tem os ingredientes para transformar a forma como gerencia a coleta e a reciclagem, incluindo bases regulatórias sólidas, vontade política e uma rede sofisticada de quase um milhão de catadores, que são o motor do sistema de reciclagem do país. A lacuna de infraestrutura é uma barreira sistêmica central para a construção de uma economia circular para embalagens, ao lado da inovação em materiais e dos sistemas de reutilização. Estamos animados para trabalhar com o Recife e começar um novo modelo de colaboração entre cidades e empresas para fechar essa lacuna, com a esperança de inspirar cidades ao redor do mundo a seguir o mesmo caminho”, afirmou a diretora para a América Latina da Fundação Ellen MacArthur, Luisa Santiago.
A proposta busca olhar para o sistema de resíduos como um todo, da geração de resíduos ao fortalecimento de quem vive da reciclagem, e está estruturada em três eixos. O primeiro é voltado à economia circular, abrangendo toda a cadeia dos resíduos, da fabricação de embalagens até a reciclagem e a reinserção dos materiais na economia. O segundo tem foco na limpeza urbana e na redução do descarte irregular de resíduos, especialmente plásticos, em rios, canais e sistemas de drenagem. Já o terceiro eixo busca fortalecer cooperativas, associações e catadores autônomos, ampliando oportunidades de geração de renda e inclusão produtiva.
“A cada ano, milhões de toneladas de resíduos chegam aos cursos d’água e aos oceanos do planeta. O fortalecimento dos sistemas de gestão de resíduos reduz esse vazamento, protegendo os ecossistemas de água doce e as comunidades que deles dependem. O Recife é o lugar certo para iniciarmos nosso trabalho, por ser uma cidade definida por sua vasta rede de cursos d’água que deságuam no Atlântico Sul. Esta parceria é única enquanto esforço multiparticipante para enfrentar o vazamento e a poluição por resíduos. Por meio da aplicação de recursos filantrópicos, buscamos atrair e mobilizar os investimentos mais amplos necessários para construir este modelo no Recife e criar um modelo para cidades no Brasil e além”, destacou a CEO da Clean Rivers, Deborah Backus.
A escolha do Recife ocorre em um momento em que a cidade vem ampliando investimentos em coleta seletiva, reciclagem, educação ambiental e fortalecimento das cooperativas de catadores. A iniciativa também dialoga com ações já desenvolvidas pela Prefeitura voltadas à recuperação de canais, limpeza urbana, ampliação das Ecoestações e fortalecimento da economia circular.
ECOESTAÇÃO VILA DO PAPEL - Durante o evento, o prefeito do Recife, Victor Marques, também realizou a entrega da Ecoestação Vila do Papel, no bairro de São José, a 17ª unidade implantada dentro do programa Recife Limpa. Com a entrega da nova unidade, o Recife mais que dobrou sua rede de pontos de entrega voluntária de resíduos. O equipamento funciona como local de recebimento de resíduos da construção civil, recicláveis, móveis velhos, restos de poda, materiais volumosos e resíduos de logística reversa obrigatória, oferecendo à população uma alternativa adequada para o descarte e contribuindo para a redução dos pontos de descarte irregular.
Para Alexsandra Maria, presidente da cooperativa Recicla Torre que trabalha com resíduos recicláveis há 17 anos, a nova ecoestação representa mais renda para os moradores. “É muito gratificante saber que na comunidade que eu vivi muitos anos na minha infância vai ter essa ecoestação, mostrando aos catadores avulsos onde o material pode ser reciclado. Saber que aquele material não vai contaminar o meio ambiente, junto com a Prefeitura e os parceiros envolvidos é muito importante. Aqui eles vão poder deixar vários materiais, inclusive entulho, e o catador vai ser remunerado. É somente gratidão”, apontou.
Na semana passada, a Prefeitura do Recife entregou a requalificação da Cooperativa Recicla Torre, que atualmente reúne 16 cooperados. A iniciativa integra uma parceria entre a Prefeitura do Recife, a Ambipar e empresas apoiadoras voltada ao fortalecimento das cooperativas de reciclagem da cidade. Como contrapartida, a gestão municipal realizou melhorias na estrutura física da unidade, enquanto a Ambipar e seus parceiros investiram em equipamentos, capacitação, profissionalização e gestão. A Recicla Torre é a segunda cooperativa beneficiada pelo projeto, que já contemplou anteriormente a Cooperativa Reciclando Vidas, ampliando a capacidade operacional, a geração de renda e a inclusão produtiva dos trabalhadores da reciclagem.
“Neste momento importante para a sustentabilidade do Recife, nós também estamos inaugurando mais uma ecoestação, um grande equipamento que a prefeitura dispõe para facilitar o descarte de resíduos volumosos. Ao invés de deixar os grandes resíduos na rua, como entulhos, o cidadão pode trazer diretamente para cá, além de funcionar como um ponto de apoio para catadores”, concluiu o prefeito do Recife.
FUNDAÇÃO ELLEN MACARTHUR - A Fundação Ellen MacArthur é uma organização internacional sem fins lucrativos que desenvolve e promove a ideia de uma economia circular para enfrentar alguns dos principais desafios da atualidade, como as mudanças climáticas, a perda da biodiversidade, o desperdício e a poluição. Trabalhamos com líderes dos setores público e privado, assim como acadêmicos, para construir conhecimento, explorar oportunidades colaborativas e projetar e desenvolver iniciativas e soluções para uma economia circular. Uma economia circular é impulsionada pelo design para eliminar resíduos, fazer circular produtos e materiais em seu valor mais alto e regenerar a natureza. Este modelo baseado cada vez mais em energia renovável e busca criar resiliência e prosperidade para as empresas, o ambiente e as pessoas.
CLEAN RIVERS - A Clean Rivers é uma fundação apoiada pelos Emirados Árabes Unidos e afiliada à Erth Zayed Philanthropies, que atua no enfrentamento dos desafios na interseção entre água e resíduos. Fundada em 2023, a Clean Rivers mantém parcerias e programas ativos na Indonésia, nas Filipinas e no Brasil, voltados ao fortalecimento de economias circulares, à redução do vazamento de resíduos em terra e nos cursos d'água, e ao apoio às comunidades ribeirinhas e aos ecossistemas de água doce.